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Love & Pop - expressão de angústias recalcadas

Atualizado: 18 de ago. de 2021

Primeiro longa-metragem live action de Hideaki Anno, Love & Pop se localiza na Tóquio de 1997 e é centrado em um grupo de quatro garotas que passam a realizar serviços de namoro compensado, atividade comum até os dias de hoje no Japão, onde homens mais velhos pagam meninas para passarem tempo com eles fazendo determinadas atividades. Com uma abordagem sensível e carregada de uma visão negativa (e, cá entre nós, realista) sobre a sociedade capitalista e o tratamento de humanos como produtos desalmados, é uma ótima indicação para quem aprecia cinema de significados e experimental em suas técnicas.

Esse não é um filme fácil de se achar textos em português sobre (aliás, eu não achei nenhum) e, para dificultar, não há legenda na nossa língua em canto algum da internet. Ainda assim, a vontade de assisti-lo era tamanha que, mesmo não sendo exatamente fluente em inglês, decidi deixar um tradutor aberto em outra aba do computador e dar play. Muito longe de ter me arrependido, decidi eu mesmo escrever brevemente sobre. Já aviso que esse texto não tem a pretensão de tentar transmitir ou pontuar uma perspectiva técnica objetiva de Love & Pop, visto que uma das suas principais características é se comunicar com a sensibilidade das experiências de cada pessoa (nesse caso, a minha) e que acho mais interessante abordar pela minha honesta subjetividade.

Sou apaixonado por arte, consumidor ativo da mesma e devo dizer que, às vezes, sinto falta de obras assim. Percebo em vários filmes, jogos e até músicas de grande orçamento pouco experimentalismo e uma certa falta de profundidade na abordagem de temas, seja lá qual forem. Sendo esse um mal de um número considerável de filmes da grande indústria, Love & Pop vai na contramão. Hideaki Anno, reconhecido principalmente pela autoria de Neon Genesis Evangelion, tem aqui uma expressão em toda sua liberdade criativa enquanto roteirista (junto a Ryû Murakami e Akio Satsukawa) e diretor, além do elenco de atuações ora caricatas (sem deixar de serem condizentes), ora super naturais e identificáveis. Hiroshi Okuda também faz um trabalho bastante pertinente de montagem, criando momentos que são a própria representação visual da efemeridade do dia-a-dia, da canseira do mundo e da turbulência dos pensamentos da protagonista.

O filme se situa em 1997, mas não se limita a apenas uma geração, uma vez que conversa com a juventude atemporal e, de certa forma, com qualquer um. É um retrato de uma das maiores angústias – consciente ou não – do adolescente: a identidade. O problema de não enxergar o seu lugar no mundo ou de se ver apenas pelo seu lugar no mundo. Não saber qual a sua função ou se reduzir a uma função, como se seu amadurecimento e a importância da sua existência fossem dependentes disso. Isso junto a como somos condicionados e nos condicionamos pelo consumismo e pelos mais passageiros desejos materiais e, nesse sentido, o filme não se limita a uma via única. Não se trata apenas da busca pelo material, e sim de uma troca pelo seu próprio material: o seu tempo, os seus serviços ou até o seu corpo. Esse é o retrato do filme: um lugar que as vezes parece distópico, bizarro e até distante para nós, mas é real e presente. Nossa realidade, em que você se sente (e é) obrigado a conseguir dinheiro de alguma forma e nada a mais parece importar, nem o propósito, nem as consequências. Você é consumidor e produto.

Além da identidade, o filme também trabalha a percepção do tempo – tema o qual sou extremamente sensível -, dando especial atenção à fase de transição para a vida adulta:

“Nós não éramos do tipo que perde tempo fazendo agora o que podemos fazer depois, quando adultos” – fala de um dos momentos leves, que me evoca a pergunta “o que eu deveria estar fazendo enquanto sou jovem?”. Para aqueles que tem dúvida semelhante à minha, assistir a esses momentos pode ajudar a esclarecer. Indo além dessa reflexão, o roteiro chega a, por exemplo, tocar no desânimo de não se sentir nada intenso dia após dia e, nos seletos momentos em que se sente algo mais profundo, basta chegar o dia seguinte para ver o mundo seguir a mesma maquinaria e você, inevitavelmente, a integrar, como se qualquer reflexão ou forte sentimento seu fosse perdível. O que importa, de uma hora para outra, não importa mais. É frustrante.

De modo geral, Love & Pop é um filme de produção singular e fácil de se identificar. É sobre respostas simples, sobre pesos que criamos, laços, objetificação e o que realmente importa. É sobre o que mais você enxergar nele, já que, como disse no início, ele se comunica com a sensibilidade das experiências de cada pessoa. Conversa muito com a minha, porque eu sinto que é sobre juventude - e eu estou nela.

Essa obra me faz lembrar de quando Henry Thoreau disse que a felicidade só é real quando compartilhada.

(Love & Pop/Letterboxd)

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